Memória, cura e diálogo intergeracional no Ruanda de hoje

Por Éloge Willy Kaneza

LEWISTON, Maine — Um silêncio solene preencheu o salão do Bates College na noite de 11 de abril, enquanto estudantes, sobreviventes, professores e membros da comunidade se reuniam para assinalar o Kwibuka 32, o 32.º aniversário do Genocídio de 1994 contra os Tutsis em Ruanda.

Realizada no Memorial Commons, no Chase Hall, a celebração reuniu participantes de todo o Maine — incluindo membros das comunidades ruandesa, burundesa e congolesa, residentes locais, estudantes universitários e líderes religiosos. Foi uma noite de recordação, testemunho e reflexão, pautada pelo tema: “Memória, Cura e Diálogo Intergeracional no Ruanda de Hoje.”

Organizado por estudantes em colaboração com o Departamento de Estudos Franceses e
Francófonos de Bates, a organização Ibuka-Maine e parceiros comunitários, o evento reuniu um painel de discussão, reflexões académicas, testemunhos de alunos e uma vigília à luz de velas em memória das vítimas do genocídio.

A comemoração ocorreu no momento em que o Ruanda e a comunidade global iniciaram a Semana de Luto anual — os primeiros sete dias de um período de memória de cem dias que assinala a duração do genocídio, entre abril e julho de 1994. A semana começa sempre a 7 de abril, data reconhecida pelas Nações Unidas (ONU) como o Dia Internacional de Reflexão sobre o Genocídio de 1994 contra os Tutsi no Ruanda.

Na sua mensagem anual, o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, exortou o mundo não apenas à memória, mas à ação. ‘Não basta recordar os mortos; devemos aprender com os
fracassos do passado e proteger os vivos’, afirmou Guterres, instando a uma resposta mais
firme contra o discurso de ódio, o negacionismo e a incitação à violência.

Uma história recordada: cem dias que mudaram o Ruanda

O genocídio teve início a 6 de abril de 1994, após o abate do avião que transportava os
presidentes do Ruanda, Juvénal Habyarimana, e do Burundi, Cyprien Ntaryamira, nas
proximidades de Kigali.

O que se seguiu foi um dos episódios de extermínio mais rápidos e brutais da história moderna.
Em cerca de cem dias, mais de 1 milhão de pessoas foram mortas, segundo estimativas da ONU
— a grande maioria tutsi, além de hutus e outros que se opuseram ao genocídio.

A violência era organizada e sistemática, impulsionada por uma propaganda extremista que
vitimava indivíduos exclusivamente em função de sua identidade.

Essa história deu o tom da comemoração, na qual os oradores enfatizaram que a memória não é
apenas simbólica, mas uma responsabilidade transmitida entre gerações.

“Comemorar não é condenar”

Entre os organizadores que falaram à Amjambo Africa está Deborah Meillah Asiimwe Hirwa,
uma liderança estudantil cuja história familiar está profundamente ligada à luta pela libertação de
Ruanda.

“Para mim, comemorar não é condenar”, disse Hirwa. “Está a homenagear as vidas dos tutsis
inocentes mortos durante o genocídio de 1994. É uma forma de manter esse ‘nunca mais’.”

Ela refletiu sobre uma conversa recente com uma amiga que questionou se relembrar o passado
seria o mesmo que condenar. “A memória é uma forma de assumir a nossa responsabilidade
como país e honrar as vítimas, sem culpar ou envergonhar ninguém”, afirmou.
O pai de Hirwa, que cresceu exilado em Uganda e depois se juntou à Frente Patriótica Ruandesa
(FPR), foi um dos que ajudaram a libertar o Ruanda em 1994. Ele faleceu algum tempo após a
libertação.

“Essa história é parte do motivo pelo qual não consigo ficar em silêncio”, disse ela.

Trauma intergeracional e cura


Enathe Muhawenimana, também organizadora estudantil em entrevista à Amjambo Africa,
ressaltou como o diálogo intergeracional é fundamental para a cura de traumas históricos.

“É muito comum que pais que sobreviveram ao genocídio transmitam seus traumas aos filhos”,
disse ela. “As crianças podem herdar o trauma dos pais. A cura vem da solidariedade, mas
também de um processo de recuperação conjunta.”

Referiu que as cerimónias do Kwibuka contribuem para colmatar o fosso emocional e histórico
entre gerações. ‘O objetivo é o entendimento mútuo’, afirmou. ‘Não serve apenas para relembrar o
passado, mas para aprendermos o processo de cura em conjunto.”

Reflexão académica: memória e responsabilidade

O evento incluiu a exibição de um documentário apresentado por Alexandre Dauge-Roth,
professor de Estudos Franceses e Francófonos no Bates College. Dauge-Roth é um académico

especializado na representação do Genocídio de 1994 contra os Tutsi, com um vasto percurso de
investigação e trabalho educativo no Ruanda, onde desenvolveu projetos colaborativos com
sobreviventes e estudantes.

Durante a sua intervenção, o professor defendeu que as instituições de ensino devem abordar
histórias traumáticas com clareza e coragem. “O silêncio pode ser protetor, mas também pode ter
efeitos negativos a longo prazo”, afirmou.

Dauge-Roth enfatizou ainda a importância da precisão histórica: “O genocídio no Ruanda foi um
genocídio contra os Tutsi. Compreender esta especificidade é essencial.” Alertou também para a
necessidade de levar a sério o discurso desumanizador, mesmo antes de a violência eclodir. “Tais
discursos nem sempre conduzem ao genocídio”, explicou, “mas criam as condições que o tornam
possível.”

“Não é apenas um número”: o testemunho de um sobrevivente

Após o painel de discussão, Landry Kwizera, Presidente da Comunidade Ruandesa no
Estrangeiro — Capítulo do Maine (RCAM) e sobrevivente do genocídio, partilhou um
testemunho profundamente pessoal. “Para nós, sobreviventes, não é apenas um número”, disse
Kwizera. “São os nossos pais, os nossos vizinhos, os nossos colegas de trabalho; as pessoas com
quem partilhámos a escola.”

Ele repudiou qualquer forma de negação ou distorção da história. “Lembrar não é uma opção”,
afirmou. “Esquecer seria abandonar aqueles que perdemos.” Kwizera reiterou que o genocídio
teve como alvo as pessoas pela sua própria identidade. “Quando dizemos que foi um genocídio
contra os Tutsi, isso é inegociável.”

Recordando a sua própria experiência como criança em 1994, relatou: “Tinha seis anos. Não
compreendíamos tudo, mas os nossos pais sabiam que éramos o alvo.”

Apesar do trauma, sublinhou a resiliência e a responsabilidade. “Não estamos aqui como
vítimas”, disse. “Estamos aqui como a luz e a esperança de um futuro melhor.” Alertou ainda
para os perigos da desinformação: “Se não falarmos claramente, outros distorcerão a história por
nós. É assim que o negacionismo cresce.”

Uma voz estudantil na memória

Benjamin Ndamukunda, de 21 anos, um dos organizadores estudantis do evento, falou à
Amjambo Africa sobre o que motiva a sua geração a envolver-se com o Kwibuka.

“Este evento moldou a minha compreensão de quem somos enquanto povo”, afirmou.
“Demonstra o quão resiliente é a nossa comunidade.” Ndamukunda sublinhou que a
comemoração não deve ser mal interpretada: “Não creio que isto reviva o ódio. Pelo contrário,
traz consciência para que possamos aprender com os erros e garantir que nunca mais se repitam.”

O jovem acrescentou que mesmo aqueles nascidos após o genocídio têm a responsabilidade de
conhecer a sua história. “Pode parecer algo distante”, disse, “mas continua a fazer parte da nossa
identidade e do nosso compromisso.”

Reflexão comunitária
Entre os presentes estava Janet Letters, membro da Igreja The Ark, em Lewiston, que
compareceu para apoiar amigos afetados pelo genocídio. “Sinto-me abençoada por ter vindo”,
afirmou. “Era fundamental para mim estar presente, apoiá-los e buscar compreender tudo o que
enfrentaram.”

Ela acrescentou: “O genocídio é um mal terrível, e ninguém interveio para impedi-lo. Rezo por
uma consciência global para que algo assim jamais se repita.”

Reflexão estudante: Solomon Kayobotsi

Solomon Kayobotsi, estudante e remador do Bates College, apresentou um monólogo durante o
programa onde refletiu sobre memória e identidade, descrevendo o Kwibuka como ‘uma
recuperação da verdade.”

“É onde o silêncio se quebra, e as memórias são guardadas como um tesouro”, disse ele.

Responsabilidade institucional

James L. Reese, Diretor Adjunto de Programas para Estudantes Internacionais do Bates College,
também falou à Amjambo Africa, ressaltando o papel das universidades na promoção do diálogo.

“Estas comemorações são um exemplo contundente de cura”, afirmou. “Elas nos instigam a
refletir sobre justiça, equidade e responsabilidade.”

Reese acrescentou que a educação deve transcender o conhecimento teórico. “Os estudantes
podem transformar o que aprendem em ações, tornando-se defensores de sociedades melhores”,
disse ele.

Memória e vigília

A sobrevivente do genocídio e conselheira de saúde mental Anne Marie Mukankusi, que
integrou o painel de discussão, recordou ao público o peso duradouro da memória. “Tudo o que
veem aqui, eu testemunhei quando era adolescente”, afirmou. “Não nos podemos dar ao luxo de
esquecer.”

A noite encerrou com uma vigília à luz de velas, enquanto os participantes permaneciam em
silêncio em homenagem às vítimas. Enquanto as chamas cintilavam pelo salão, a mensagem
ecoou para além de Lewiston: a memória não é apenas sobre o passado — é uma
responsabilidade perante o futuro. Ou, como os participantes reforçaram ao longo da noite:
“Nunca mais” tem de ser muito mais do que apenas palavras