Por Violet Ikong

Em janeiro, os Estados Unidos impuseram uma restrição abrangente de vistos a 39 países, incluindo 26 na África. Cerca de quatro meses depois, o governo recuou na decisão, isentando os médicos da medida. O presidente Donald Trump afirmou que a proibição visava proteger a segurança nacional, mas a política generalizada acabou por afetar também médicos que já viviam e trabalhavam no país, impedindo muitos de renovar ou prorrogar os seus vistos.

Diante disso, em abril, mais de 20 organizações de saúde enviaram uma carta aos departamentos de Estado e de Segurança Interna dos EUA, alertando que as comunidades atendidas por profissionais estrangeiros enfrentavam dificuldades no acesso à saúde. “Qualquer política adotada em grande escala e de forma tão rápida tem consequências”, afirmou Jeanne Batalova, analista sénior de políticas do Migration Policy Institute (MPI), em Washington, à Amjambo Africa.

Com os processos congelados, os hospitais viram-se obrigados a colocar alguns médicos em licença administrativa, enquanto outros corriam o risco de perder o emprego. “Alguns médicos que chegaram com o visto J-1 para trabalhar como residentes não conseguiram fazer a transição para cargos a tempo inteiro devido às restrições”, explicou Batalova.

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Mesmo os profissionais que não foram diretamente afetados pela proibição sentiram o impacto, sendo sobrecarregados com mais pacientes à medida que os colegas eram afastados. “É extremamente exaustivo, e o esgotamento dos médicos já era um grande problema”, sublinhou a analista. Embora o Serviço de Cidadania e Imigração dos EUA não tenha anunciado publicamente a reversão da política, a agência atualizou discretamente o seu site para incluir a isenção aos médicos, deixando os profissionais afetados na incerteza sobre o impacto real da mudança na prática.

Como os Imigrantes Contribuem para os Cuidados de Saúde

Um relatório  de 2025  da American Medical Association (AMA) apontou que cerca de 25% dos médicos em atividade nos EUA são formados no exterior, totalizando aproximadamente 325.000 profissionais. Esse protagonismo dos imigrantes na saúde já se consolidava anos antes: em 2021, dados  do Migration Policy Institute (MPI) mostravam que estados como Califórnia, Flórida, Maryland, Arkansas e Texas tinham mais de 30% de seus médicos e cirurgiões compostos por profissionais nascidos fora do país.

“Em algumas especialidades, como nefrologia e geriatria, a proporção de médicos estrangeiros passa da metade. Por isso, é crucial para muitos pacientes e hospitais que haja acesso a esses profissionais”, disse Batalova.

Muitas áreas rurais e subatendidas nos EUA têm apenas um médico para até 3.500 pessoas, e a maioria desses profissionais vem de países como Índia, Paquistão, Filipinas e Nigéria. Alguns hospitais dessas regiões dependem inteiramente de médicos imigrantes. Uma carta conjunta que a AMA e outras organizações de destaque enviaram ao governo federal em 2025 reiterou que — como 64% dos médicos formados no exterior atuam em Áreas Medicamente Desfavorecidas e 21 milhões de americanos dependem deles para suprir pelo menos metade da força de trabalho médica local — manter esses profissionais afastados devido a atrasos administrativos prejudica diretamente os pacientes americanos.

“[Os médicos estrangeiros] trazem uma espécie de competência cultural a estas comunidades. Por isso, se houver uma população internacional numa área urbana, por exemplo, os médicos internacionais ajudam a colmatar essa lacuna e a compreender pessoas de diferentes origens”, disse Dan Berger, especialista em imigração médica e investigador na Faculdade de Direito de Cornell, em Nova Iorque, à Amjambo Africa.

“Políticas Extremamente Contraditórias”

“Até 2034, os EUA devem enfrentar uma escassez de até 124.000 médicos, o que tornará a presença de médicos formados no exterior (IMGs) essencial para preencher as lacunas no setor. ‘Precisamos tanto de médicos imigrantes quanto de nacionais, porque a escassez é grave’, afirmou Berger. ‘Os EUA formam muitos médicos, mas o número simplesmente não é suficiente para o tamanho da nossa população.”

“No entanto, políticas de imigração restritivas continuam a limitar a entrada de médicos estrangeiros. Após a implementação de regras rigorosas, o país registrou um saldo migratório negativo em 2025 — algo que não acontecia há cerca de 50 anos.”

Segundo Patrick Taran, presidente da Global Migration Policy Associates. (sediada em Genebra, Suíça), a diminuição do fluxo migratório para os EUA representa uma ameaça ao setor da saúde do país, bem como ao seu crescimento económico, competitividade e estabilidade fiscal nas próximas décadas

No ano passado, Trump admitiu que o país precisa de trabalhadores estrangeiros qualificados, afirmando que os EUA não possuem profissionais com “certos talentos” para desempenhar funções internas. “Os EUA e os países ocidentais em geral estão seguindo políticas extremamente contraditórias. Se você precisa de trabalhadores, mas os expulsa e não os incentiva a entrar, inevitavelmente sofrerá consequências econômicas enormes”, disse Taran.

Referiu que os trabalhadores nascidos no estrangeiro já representam quase 20% da força de trabalho dos EUA, uma percentagem que se tornará ainda mais crítica à medida que a população ativa doméstica envelhecer. Mas, para além da contradição económica, sugeriu que as políticas anti-imigração podem servir um propósito político mais profundo. “Há a intenção de culpar os estrangeiros pelos problemas, criminalizá-los e demonizá-los, para que as verdadeiras questões não sejam reconhecidas. Também permite aumentar o controlo sobre a força de trabalho, especialmente sobre a sua grande proporção de imigrantes”, afirmou.

Permanece incerto se a decisão de isentar os médicos das proibições de visto é uma solução temporária ou uma política perene. No entanto, Taran afirmou que a reversão reflete a resposta do governo à crescente preocupação pública com o custo e a disponibilidade dos cuidados de saúde. “Se não abordarem o problema como um todo e não adotarem uma política migratória completamente diferente, a questão não será resolvida. Só vão cavar um buraco mais fundo e largo, tornando ainda mais difícil sair dele”, concluiu Taran.

Futuro Imprevisível

A reversão da política dos EUA provou a importância dos imigrantes para o sistema de saúde do país, mas também pode influenciar as decisões futuras sobre a entrada de trabalhadores qualificados. “É um pouco difícil prever. Por um lado, já vemos que os Estados Unidos estão perdendo o acesso ao talento internacional — seja falando de estudantes estrangeiros de forma mais ampla, seja do número de médicos e enfermeiros que migram para cá —, ao contrário de nações como Canadá, Austrália e integrantes da União Europeia”, afirmou Batalova.

Segundo ela, embora os EUA continuem atraindo profissionais de saúde internacionais devido ao seu vasto mercado, pode haver um redirecionamento desse fluxo para países com políticas de visto mais tolerantes e atraentes. No entanto, ela ressalta que isso dependerá diretamente das medidas que forem adotadas e implementadas pelo governo americano.

Simi, uma médica nigeriana de saúde pública e clínica geral que atua no Reino Unido (e que pediu para ser identificada apenas pelo primeiro nome), alertou que as futuras decisões sobre mobilidade médica devem ir além da política migratória. Para ela, é preciso incluir debates sobre a continuidade dos cuidados, a estabilidade da força de trabalho e a resiliência de longo prazo dos sistemas de saúde.

“Restrições amplas de vistos que ignoram as necessidades da força de trabalho podem, inadvertidamente, prejudicar o acesso dos pacientes aos cuidados e sobrecarregar ainda mais um sistema de saúde já pressionado”, alertou Simi.

Para Batalova, uma abordagem mais visionária fortaleceria a força de trabalho doméstica, reconhecendo simultaneamente o papel vital que os imigrantes já desempenham no setor. Por hora, a isenção oferece um alívio temporário, mas o impasse central permanece sem solução: a contradição entre um sistema de saúde que depende de médicos estrangeiros e políticas de imigração que geram incerteza.