By Damascene Hakuzimana

Uma entrevista com dois médicos franceses na estação de TV francesa LCI provocou uma reação irada na mídia depois que os médicos sugeriram que os testes de vacinas COVID-19, a serem lançados na Europa e na Austrália, pudessem ser experimentados pela primeira vez na África. O teste consiste em verificar se a vacina contra a tuberculose Bacille Calmette-Guérin (BCG) seria bem-sucedida no tratamento do COVID-19. Embora a vacina não seja amplamente conhecida nos EUA, geralmente é administrada a crianças e bebês em países onde a tuberculose é comum – com resultados variados –

Figuras desportivas, dignitários políticos e cidadãos comuns da África e de todo o mundo expressaram sua indignação com a sugestão dos médicos. Eles apelidaram os comentários de ‘racistas’. Os dois médicos em questão são Paul Mira, chefe da unidade de terapia intensiva do Hospital Cochin, em Paris, e Camille Locht, diretora de pesquisa do Instituto Nacional de Saúde da França. Mira sugeriu: “Pode ser provocativo. Não devemos fazer esse estudo na África, onde não há máscaras, tratamento ou terapia intensiva – um pouco como foi feito em certos estudos sobre sida, onde entre prostitutas tentamos coisas, porque sabemos que elas são altamente expostas e não se protegem?

“Está certo”, respondeu Locht.

O AfricaNews noticiou reações furiosas de astros internacionais do futebol africano. O ex-atacante marfinense do Chelsea, Didier Drogba, criticou a sugestão de que a África deveria ser usada como local de teste para uma solução para a atual crise de coronavírus. “É totalmente inconcebível que continuemos consentindo isso… a África não é um laboratório de testes. Gostaria de denunciar vividamente as palavras humilhantes, falsas e mais racistas. Ajude-nos a salvar a África…” Drogba escreveu no Twitter

Demba Ba, do clube turco Istanbul Basaksehir, também reagiu com raiva no Twitter. Seu post dizia: “Bem-vindo ao Ocidente. Onde os brancos acreditam que são tão superiores que o racismo e a estupidez são a norma.”

#AfricansAreNotLabRats #AfricansAreNotGuineaPigs estão em alta no Twitter desde a polêmica entrevista dos médicos. O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, condenou os comentários dos médicos, descrevendo-os como “racistas” e uma recordação infeliz da “mentalidade colonial”.

Pious Ali do Maine, procurado para comentar, disse: “Desde que a França pôs os pés na África, em 1659, os colonizadores continuamente roubavam tudo o que podiam… Peço à União Africana que diga não pela primeira vez a esse flagrante racismo. Nossos antepassados podem não estar equipados para combater os colonizadores, mas os líderes atuais não têm desculpa … já se foram os dias em que os colonizadores usam os países pobres como laboratórios.”

A Associated Press relata que o Dr. Jean-Jacques Muyembe, chefe do instituto nacional de biologia no Congo-Kinshasa, e creditado com a interrupção do surto de Ebola no Congo, tem uma visão diferente das observações, dando boas-vindas aos ensaios na África. “A vacina será produzida nos Estados Unidos, no Canadá ou na China. Somos candidatos a fazer os testes aqui,” disse Muyembe. Seus comentários geraram polêmica na República Democrática do Congo, em meio a acusações de que a população estava sendo usada como cobaia.

De acordo com a Deutsche Welle da Alemanha, um coletivo de advogados marroquinos disse que processaria Dr. Mira por difamação racial. A ONG francesa antirracismo, SOS Racisme, emitiu um comunicado dizendo “Não, os africanos não são cobaias” e descreveu a comparação com a AIDS e as prostitutas como ‘problemática’ e ‘indesejável’ The CSA, o órgão de controle da ética para a rádio e televisão francesa, disse à AFP que recebeu uma denúncia. Na sexta-feira, 3 de abril, Dr. Mira é citado como tendo dito: “Quero apresentar todas as minhas desculpas àqueles que ficaram feridos, chocados e que se sentiram insultados pelas observações que desajeitadamente expressei”.